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DEPRESS├O

 

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A adolescência e a juventude correspondem a períodos de desenvolvimento que se caracterizam por mudanças e transições significativas na tua vida por vezes podemos sentir que:

"A primavera da vida é bonita de viver,
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover."
(Rui Veloso; Carlos Tê)

Este é um período de transformações físicas, psicológicas, cognitivas, relacionais e afetivas.

Procuras reforçar a tua identidade e autonomia e neste sentido é importante a relação que estabeleces contigo e com os outros, sejam eles familiares, amigos ou colegas. Em alguns destes momentos, é bem possível que sintas tristeza, angústia, que entres em confronto e mesmo conflito com os teus pais, que adotes algumas posturas e comportamentos que lhes pareçam estranhos e de desafio à sua autoridade. É também a fase em que podes estabelecer novas relações de amizade. 

Esta etapa da tua vida é intensa e pode implicar que te sintas estranho contigo mesmo e com os outros. Por vezes sentes-te adulto e tratam-te como criança, outras vezes sentes saudades de quando não tinhas tantas responsabilidades. As pessoas mais velhas até dizem que estás na «crise da idade» por causa dos conflitos internos e externos que estás a viver. Muitas destas vivências, emoções e sentimentos que lhe estão associadas são normais e não implicam qualquer tipo de perturbação da tua saúde mental, pois tendem a ser transitórios (passam ao fim de algum tempo), por isso não deves alarmar-te porque te sentes triste, ansioso, insatisfeito ou mesmo irritado.

Contudo, nem todos os adolescentes e jovens reagem da mesma forma a estas situações. Em alguns casos estes problemas podem vir a agravar-se com o tempo, tornando-se incapacitantes, podendo vir a dar origem aquilo que designamos de problemas e perturbações mentais e do comportamento, como é o caso da depressão.

 

DEPRESSÃO

A palavra depressão é das mais utilizadas quando falamos de perturbações mentais. Até se diz que a depressão está na moda, ou, outras vezes, diz-se que a depressão é coisa que acontece a pessoas com pouca força de vontade. Na realidade quando falamos em depressão, falamos de uma doença que tem profundas implicações na vida das pessoas, sejam adolescentes, jovens, adultos ou idosos, causando sofrimento e podendo tornar-se altamente incapacitante, mesmo que por vezes as pessoas à nossa volta não o entendam.

Aquilo que designamos como perturbação depressiva é uma doença que envolve o humor, os pensamentos, os comportamentos e inclusivamente o nosso corpo. O humor como sabes tem a ver com o nosso estado de ânimo ou disposição emocional que nos faz estar alegres ou tristes. Talvez por isso a palavra mais associada à depressão seja tristeza, contudo os jovens podem sentir-se tristes e «andar em baixo» quando se deparam com acontecimentos negativos e stressantes, normalmente transitórios, mas ao fim de algum tempo voltam a sentir-se alegres e isso não é depressão. No entanto, há casos em que os jovens não conseguem recompor-se e a tristeza prolonga-se ao longo do tempo, mais do que seria de esperar.

A depressão afeta a forma como te vês a ti como pessoa, como vês e interages com os outros, normalmente com os pais, familiares e amigos e com o meio que te rodeia, por exemplo a escola. A sensação de vazio, de desespero, desamparo e desesperança, de ter pouco valor ou não valer nada, de nada poder ou conseguir fazer para mudar as coisas ou levar a vida para a frente é normal para quem está a sofrer de depressão. Muitas vezes está ainda alterado o apetite, o sono, o desejo, o prazer, etc...

A depressão apenas pode ser diagnosticada por profissionais especializados (ex.: médicos de família e psiquiatras). Esta caracteriza-se, tal como outras doenças, por um conjunto de sinais e sintomas. Deves estar atento a ambos, reconhecendo-os em ti ou nos outros, no entanto os sinais são também fundamentais para poderes ajudar alguém que suspeitas estar a deprimir ou deprimido.


SINAIS

Consoante a situação em que se encontrem, numa depressão podem ser visíveis alguns dos seguintes sinais:

  • Choro fácil sem motivo aparente ou crises de choro;
  • Desmotivação (ex.: deixar de estudar ou participar em trabalhos de grupo);
  • Isolar-se, quer em casa, fechando-se no quarto, quer com os amigos, evitando-os;
  • Procurar não estar em casa e quando regressa fechar-se no quarto;
  • Desinteresse e começar a faltar às aulas;
  • Baixar o rendimento escolar;
  • Mostrar-se muito pessimista e derrotado (verbalizar: não consigo fazer nada bem.);
  • Deixar de participar nas coisas que habitualmente gostava (ex.: desporto);
  • Mostrar-se agressivo quer física quer verbalmente, para colegas, familiares e amigos;
  • Deixar de realizar as atividades em casa que lhe estavam destinadas (ex.: arrumar o seu quarto);
  • Evitar falar com os pais quando estes questionam ou tocam no assunto do seu estado;
  • Começar a emagrecer ou a engordar de repente, comendo pouco ou em demasia;
  • Deixar de ter preocupação com a sua aparência; 
  • Introduzir nas conversas o tema da morte quando nunca o fez anteriormente; 
  • Ficar irritado com facilidade pelas mais pequenas coisas;
  • Ser muito crítico relativamente a si manifestando-o aos amigos;
  • Começar a consumir drogas ou álcool;
  • Ter comportamentos de auto-mutilação (ex.: cortar os braços).

 

Na família, em casa, na escola com colegas, amigos e professores, ou então noutras situações sociais, trata-se de indícios de que algo se passa de errado ou de que algo não está bem, sendo por isso um motivo de alerta. Por si só, não significam que a pessoa tem uma depressão.


SINTOMAS

Como sabes os sintomas dizem respeito ao modo como a pessoa se sente. Na maioria das vezes, os jovens durante um episódio de depressão vivenciam alguns deles ou vários de forma mais ou menos acentuada. Eis alguns:

  • Sentir-se muito triste, sendo quase insuportável essa tristeza;
  • Sentir um vazio, perdido e sem esperança que as coisas melhorem;
  • Sentir-se muito ansioso e preocupado sem motivo aparente;
  • Sentir-se cansado e sem energia;
  • Perder o apetite ou ter apetite em excesso;
  • Autocrítica frequente (sentir que é uma nódoa, que não presta…);
  • Autoculpabilização (sentir que é culpado pelo que ocorre de mal a si ou aos outros);
  • Sentir uma diminuição acentuada da vontade e desejo sexual;
  • Sentir dores fortes e injustificáveis (exemplos: dores de cabeça; dores lombares);
  • Sentir que não consegue concentrar-se nem memorizar nada;
  • Deixar de conseguir adormecer, ou então dormir mais que o habitual;
  • Vontade de estar completamente sozinho; 
  • Pensar que os outros o vêm como uma pessoa sem valor;
  • Ter pensamentos sobre a morte (comportamentos da esfera suicidária).

 


AJUDA: PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Muitos jovens têm dificuldades em pedir ajudar por (observa o gráfico seguinte):

 

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A AJUDA É POSSÍVEL E EFICAZ!

Existem vários profissionais de saúde especializados e tratamentos disponíveis que podem ajudar-te ou ajudar alguém que te é próximo no caso de estar a sofrer de uma depressão. A depressão tem cura, mas se não for tratada a tempo, pode ter problemas sérios que comprometem o futuro, nomeadamente:

  • Quebra do rendimento escolar com implicações a longo prazo;
  • Perda do suporte dos amigos e da família;
  • Dependência de álcool e drogas;
  • Elevado risco de suicídio .

 

De entre os profissionais de saúde, os mais referidos e corretamente identificados pelos adolescentes e jovens que foram inquiridos no estudo que realizámos são para os ajudar na depressão:

  • Médicos de família;
  • Psicólogos clínicos;
  • Psiquiatras e Pedopsiquiatras.

 

É de salientar que existem outros profissionais de saúde e de educação que também poderão ajudar-te, especificamente na procura de ajuda ou no acompanhamento:

  • Enfermeiros;
  • Enfermeiros de Saúde Mental;
  • Assistentes Sociais;
  • Professores.

 

TRATAMENTOS E INTERVENÇÕES DISPONÍVEIS

Existem diversas terapias consoante a situação que se apresente. Habitualmente são divididos em psicológicos e medicamentosos (também designados de psicofarmacológicos). Estes podem ser usados em separado ou então combinados. Podem ainda ser utilizadas estratégias de autoajuda, mas devem ser sempre discutidas com um profissional.
               

Terapias psicológicas:

  • Terapia cognitivo-comportamental assenta na ideia de que a forma como pensamos influencia a forma como nos sentimos e agimos. Quando os jovens ficam deprimidos pensam de forma negativa sobre a maioria das coisas, apresentam frequentemente falta de esperança, têm uma visão negativa de si próprios, do mundo e do próprio futuro. Esta terapia ajuda o adolescente e o jovem a reconhecer que estes pensamentos não são úteis e procura alterá-los para ideias mais realistas. Também ajudar a modificar os comportamentos depressivos levando-o a construir estratégias positivas, envolver-se em atividades agradáveis e a experienciar emoções positivas.

     

  • Terapia familiar sistémica aborda as relações familiares como um fator marcante na depressão. O terapeuta tenta ajudar todos os membros da família a resolver os conflitos caso existam, nomeadamente estabelecer prioridades e estratégias em conjunto e a mudar os papéis que desempenham habitualmente.

     

  • Terapia de resolução de problemas (também conhecida como terapia coping ou confronto de problemas)envolve sessões com um terapeuta para identificar claramente os problemas, pensar em diferentes soluções para cada problema, escolhendo a melhor dessas e desenvolver e levar a cabo um plano. Depois verifica-se se isso resolve o problema.

     

 

MEDICAMENTOS

Tanto as pessoas de uma forma geral, como os adolescentes e jovens, têm certas reservas perante a utilização de medicamentos, como observámos no estudo que realizámos. Muitas vezes, influenciados por aquilo que vêm e ouvem na comunicação social, afirmam que os medicamentos deixam os jovens a parecer «zombies» e temem os seus efeitos secundários.

Muitas vezes os teus próprios colegas dizem que os medicamentos não resolvem os problemas. Na verdade, os medicamentos, como por exemplo antidepressivos , quando são necessários, são úteis e eficazes, sendo prescritos por médicos. Contudo, há casos em que os medicamentos são utilizados em conjunto com as psicoterapias.

 

ESTRATÉGIAS DE AUTOAJUDA

As estratégias de autoajuda podem ser úteis em conjunto com outros tratamentos e poderão ser adequadas para adolescentes e jovens com sintomatologia depressiva. É importante discutir as estratégias de autoajuda com um profissional adequado.

Existem estratégias de autoajuda que podem ser úteis para adolescentes com sintomatologia depressiva. Estas incluem:

  • Leitura de livros de autoajuda;
  • Envolveres-te em atividades de voluntariado e participação em grupos de ajuda cívica;
  • Prática de exercício físico regular;
  • Técnicas de relaxamento;
  • Não consumir álcool e outras drogas.

A capacidade e o desejo de utilizar as estratégias de autoajuda dependem de cada um e dos teus interesses. Deve-se privilegiar também o contacto com os amigos, sair e passear. É muito importante cuidar de ti e investir nos amigos.

Se uma gripe ou uma amigdalite exigem uma consulta médica, a presença de sinais e sintomas de depressão, dependendo da sua intensidade e frequência, implica a necessidade de procurar ajuda especializada. Caso tu ou um amigo teu estejam nesta situação, não se sentem à espera que passe.
Podes ajudar um amigo teu numa situação em que suspeitas que está a sofrer de depressão, utilizando algumas estratégias úteis (ANIPI).

 

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COMPORTAMENTOS SUICIDÁRIOS

A adolescência é um período de grandes mudanças, que podem ser experienciadas de forma conturbada, podendo determinar dificuldades em várias áreas – familiares, escolares e no grupo de amigos. É nesta fase que podem surgir os problemas/perturbações mentais, como é o caso da depressão. Muitas vezes a incapacidade de lidar com as diferentes exigências do quotidiano podem levar ao aparecimento de pensamentos, comportamentos para-suicidários ou de comportamentos suicidários, que surgem muitas vezes associados à depressão, psicoses ou então a doenças mentais não diagnosticadas.

Quando falamos de comportamentos da esfera suicidária referimo-nos ao ato pelo qual o indivíduo causa uma lesão a si mesmo, independentemente do nível da intenção e do motivo. O termo para-suicídio utiliza-se para designar um comportamento sem intenção de morrer, mas que pode ter consequências fatais.

Os pensamentos, comportamentos para-suicidários e suicidários são originados por grande sofrimento. Muitas vezes estes pensamentos e comportamentos traduzem a incapacidade para lidar com mudanças ou situações que o adolescente/jovem considera problemáticas, e não encontra outra forma para resolver os seus problemas devido a doença (por exemplo uma depressão) que o impede de avaliar corretamente os problemas. Obviamente que nenhum comportamento da esfera suicidária resolve os problemas que lhe deram origem.

Os adolescentes/jovens com comportamentos para-suicidários e suicidários sentem-se desesperados, sem esperança no futuro, possuem uma visão negativa de si próprios. Geralmente estão pessimistas e inseguros, podendo manifestar sentimentos de tristeza e isolamento, alguns podem ter como podem possuir alguma dificuldade em transmitir esses sentimentos de desesperança, quer por vergonha ou por pensar que os outros não vão valorizar o que sentem.

Quando assim é, a procura de ajuda está comprometida e as próprias pessoas que os rodeiam não se apercebem de que algo errado se passa.

Quando o adolescente/jovem consegue verbalizar os seus pensamentos suicidas, por exemplo diz: - “quero desaparecer!”; - “Já nada vale a pena!”; - “Não ando aqui a fazer nada!”, deve-se encarar isso como algo sério pois pode ser aquilo que muitas vezes se diz ser o grito de ajuda; por isso em nenhum momento deve ser desvalorizado ou então entendido como um mero «chamar à atenção».

O suicídio é um comportamento muito complexo e multifacetado, que envolve uma dor psicológica insuportável, sensação de desespero e total desesperança no futuro, visto como a única fuga para terminar com o seu sofrimento. Não esqueças, os comportamentos suicidários são ações deliberadas, em que o jovem tem intenção do resultado fatal, a morte.

O desejo de silenciar a dor…sem desejo de morrer

Como se referiu, os comportamentos para-suicidários são ações, geralmente não fatais associadas à morte mas à falsa perceção de controlo (por exemplo: automutilação ou a toma excessiva de medicamentos) em que o adolescente/jovem não tem intenção de morrer, mas é uma forma de transmitir a revolta e raiva que sente, utilizando o próprio corpo. Este tipo de comportamentos são a forma encontrada pelo adolescente/jovem para atenuar a angústia e dor psicológica, quando não consegue tecer outras estratégias para enfrentar as dificuldades, mas em que anseia por uma mudança na sua vida.

Os comportamentos de automutilação (por exemplo: cortes nos braços ou pernas), visam transformar a dor psicológica em dor física. Surgem perante situações de grande ansiedade, fúria e dor psicológica e na dificuldade do jovem expressar os seus sentimentos, proporcionando uma falsa sensação de alívio, o que muitas vezes o leva a repetir este comportamento mesmo quando depois sente vergonha e culpa.

 

SINAIS

Nem sempre é fácil observar os sinais num jovem com pensamentos, comportamentos para-suicidários e suicidários, pois muitas vezes ele não consegue verbalizar e demonstrar o que sente, camuflando os seus verdadeiros sentimentos.

O jovem pode dar alguns indícios, e é importante que os valorizes, tais como:

  • Verbaliza vontade de desaparecer e morrer;
  • Fala ou escreve acerca da morte ou suicídio;
  • Desfaz-se de coisas que estima;
  • Tem comportamentos de risco sem pensar nas consequências (conduzir de uma forma
    extremamente perigosa);
  • Abuso do consumo de álcool e outras drogas;
  • Evita conviver com a família e amigos;
  • Isolar-se.

SINTOMAS

Os jovens podem ter dificuldade em verbalizar os seus sintomas. No entanto, pode:

  • Sentir ansiedade e agitação;
  • Sentir desespero e desesperança;
  • Sentir-se encurralado, “num beco sem saída”;
  • Sentir que já nada vale a pena;
  • Ter dificuldades em dormir ou passar a maior parte do tempo sonolento.

 

PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Os comportamentos para-suicidários e suicidários geram um grande sofrimento nos jovens e nas suas famílias. O jovem quando se encontra perante um desespero enorme pensa que já não existe solução mas existe, por isso é importante o encaminhamento para uma ajuda especializada.

É extremamente importante a procura de apoio especializado, pois esta ajuda pode fazer toda a diferença, ajudando as famílias e os jovens a encontrar estratégias positivas na sua vida.

No caso de para-suicídio ou outro comportamento da esfera suicidária deve recorrer-se de imediato a um serviço de urgência.

 

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